terça-feira, abril 25, 2017

Operação 'Deu Zebra' desarticula duas quadrilhas de jogo do bicho na fronteira do RS


Considerada a maior ofensiva da história da Polícia Civil do Rio Grande do Sul contra os jogos de azar, a Operação Deu Zebra estourou, na manhã desta terça-feira, bancas de dois bicheiros que dominam o mercado na Metade Sul do Estado. 

Os números não deixam dúvida sobre a magnitude da ação: 212 policiais civis cumprem 237 ordens judiciais. O chefe de Polícia, Emerson Wendt, está em Santana do Livramento, na fronteira gaúcha com o Uruguai, para coordenar o trabalho. Na palestra de instrução aos agentes que estão cumprindo os mandados, Wendt afirmou que essa é a maior iniciativa já deflagrada pela Polícia Civil contra a lavagem de dinheiro no RS.

A operação tem ordem para prender preventivamente 14 suspeitos, incluindo patrões e um técnico em informática responsável por garantir tecnologia de alto padrão à jogatina.

A investigação de 16 meses da 12ª Delegacia Regional de Santana do Livramento, liderada pela delegada Ana Tarouco, constatou, a partir de 415 mil ligações telefônicas grampeadas e de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que os grupos liderados por Mario Kucera, de Bagé, e Marcos Dierka, de São Gabriel, teriam se valido de uma extensa rede de lotéricas, lojas e laranjas para lavar dinheiro de origem ilícita do jogo do bicho.
Em quatro anos, os barões supostamente movimentaram R$ 521 milhões entre lucros e pagamentos de prêmios e despesas, enquanto suas declarações de imposto de renda indicavam receitas parcas ou nulas.
— O meu jogo é um patrimônio gigantesco. Eu não vendo ele por 10 milhões — disse um dos investigados em ligação grampeada.
A operação cumpre mandados em 14 municípios, a maioria deles com a presença de bancas supostamente dominadas por Kucera e Dierka, que são de grupos independentes, mas atuariam de forma colaborativa. As medidas incluem sete conduções coercitivas, 73 buscas e apreensões, bloqueio de 67 contas bancárias e sequestro de 19 imóveis e 57 veículos. Os bens congelados dos suspeitos foram estimados em cerca de R$ 11 milhões.
Por trás dos seus balcões, a Polícia Civil constatou corrupção policial, sonegação, conflitos, intimidações, agressões e circulação de armas de fogo em situação irregular. Também foram detectados casos de viciados em jogo se desfazendo de patrimônio para entregar tudo aos bicheiros, utilização de carro da prefeitura de Bagé para o recolhimento do dinheiro do jogo e engrenagens do lobby feito por contraventores no Congresso. As ramificações nacionais não puderam ser mapeadas até agora devido ao seu gigantismo, mas as bancas gaúchas estão ligadas a outras — parte delas de porte maior e posição hierárquica superior — em São Paulo, Rio, Bahia, Paraná e Goiás.
Foram esses elementos que permitiram à delegada Ana Tarouco vincular os suspeitos não somente ao crime de contravenção por exploração do jogo ilícito, mas também a delitos mais graves como lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os dois últimos itens foram os decisivos para a determinação de prisão das cúpulas das quadrilhas. A exploração do jogo, por si só, não provoca detenção e esse tipo de delito está sendo objeto de absolvição pela Turma Recursal Criminal da Justiça gaúcha.
— A população pensa que o bicho é um jogo inofensivo, desconhecendo tudo que está por trás daquele apontador (pessoa que anota a aposta). É um esquema de movimentação milionária que acaba conduzindo a uma série de outros delitos — diz a delegada Ana Tarouco. (Zero Hora)

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