sexta-feira, junho 02, 2017

Depois de fazer senador trabalhar no campo, agricultora é convidada a falar em Brasília

Foto:Divulgação
Há alguns meses, a agricultora Juliane Schneider da Silva (42), de Bela Vista, interior de Selbach, externou sua indignação em relação à Reforma da Previdência, especialmente nos artigos que atingem a classe rural. Fez isto através de um vídeo feito pelo filho Igor (13) onde ela aparece limpando a estrebaria onde a família produz leite e convidando políticos para participar da rotina no campo. O que ela não imaginava, porém, era que a postagem em seu perfil no facebook teria tamanha repercussão. O vídeo foi postado pela manhã e ao meio dia já havia sido assistido por 90 mil pessoas. Dois dias depois, eram 4 milhões de visualizações e 150 mil compartilhamentos. Hoje são mais de 7 milhões de visualizações.
A família Silva tem 33 hectares, a maioria dedicada a produção leiteira, carro chefe da propriedade, mas o cultivo de soja também incrementa a renda. Quase todo o milho produzido é transformado em silagem para alimentar o gado “Eu estava chateada porque meu marido havia sofrido um acidente e estava afastado do trabalho. Temos mais de 30 vacas em lactação e tive de absorver praticamente toda a rotina da propriedade. Acordo as 4h30min para a lida e muitas vezes, às 21h, ainda estou trabalhando. Fiquei me questionando até quando eu aguentaria isto”, relata, contando que uma iniciativa semelhante de um agricultor paranaense motivou-a a fazer a postagem. “Primeiro fiquei pensando se faria ou não a postagem. Quando vi o vídeo do paranaense pensei que era a hora. Foi um desabafo. Quem assiste pode notar que estou ofegante, pois recém havia retornado de buscar as vacas no pasto, é uma caminhada de 40min, e ao mesmo emocionada porque muita gente não tem noção de como é nossa rotina e quando precisamos do INSS para um auxílio doença nos olham e dizem que ainda podemos caminhar”, critica.

Senador aceitou convite
Juliane também não imaginou que o convite que fez aos políticos seria aceito pelo Senador Paulo Paim (PT). Ele esteve na propriedade da família Silva no sábado (27). “Quando a assessoria me ligou queria combinar a chegada para as 7h30, mas não! Nosso trabalho começa às 5h30min. O senador ficou bastante impressionado com tudo o que precisamos fazer e até recomendava que eu não erguesse os cestos com silagem para o gado, por ele ser pesado. Mas não tem jeito. São coisas que precisamos fazer todos os dias, mais de uma vez ao dia”, relata.

O petista esteve acompanhado por assessores e a coordenadora da Fetraf-Sul, Cleonice Back. Ele ajudou Juliane a colher verduras, alimentou o gado, ordenhou as vacas e limpou a estrebaria, exatamente como a agricultora fez no vídeo. “Ainda bem que choveu para que eles tivessem ainda mais noção do sofrimento que é trabalhar no campo. Não temos como esperar a chuva passar, ou deixar as tarefas para o dia seguinte. É sempre um compromisso. Não temos folga, nem feriado ou férias. Não posso deixar minhas vacas e viajar para a praia”, reitera.

Cobrando os representantes
Juliane considera importante que as pessoas se manifestem e cobrem atitudes de seus representantes. “Até o valor pelo litro do leite não somos nós que definimos, pagamos nossos impostos em dia e temos que nos posicionar. Até na época em que meu vídeo estourou, um deputado esteve na região e disse que estes movimentos nas redes sociais são protagonizados por um bando de hipócritas. Eu respondi a ele dizendo que se hipocrisia era levantar as 4h para sustentar a família, alimentar o país, pagar os impostos em dia e ser honesto, então sou uma pessoa feliz”, conta ela, que não é filiada a nenhum partido político, é integrante de sindicato de trabalhadores rurais, mas não milita na liderança.

Depoimento na Comissão de Direitos Humanos
A visita de Paulo Paim à propriedade de Juliane também repercutiu entre os colegas dele em Brasília, já que ele fez questão de contar sua experiência no Congresso. Na segunda-feira (29), a agricultora gaúcha recebeu o convite para falar na Comissão de Direitos Humanos do Senado, no dia 5 de junho. “Aceitei na hora. Sei que é uma responsabilidade muito grande, mas vou mostrar como as pessoas sofrem. Vou levar outro vídeo sobre nossa rotina e um pote com silagem para eles sentirem o cheiro do alimento do gado, este cheiro que fica impregnado nas mãos”, diz ela. “Os militares ficaram de fora da reforma da previdência. Concordo que eles tem um trabalho importante. Mas você já viu um soldado cumprindo seu papel de barriga vazia? É a agricultura familiar que produz os alimentos para o mundo. Se ela não for fortalecida, o que será do futuro? Vamos importar alimentos?”, completa.

“Choque de realidade”
Em material publicado pela assessoria de imprensa em sua página oficial no facebook, o Senador Paulo Paim falou em “choque de realidade”. O parlamentar, que é contrário às reformas, é presidente da CPI da Previdência e vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Participação Legislativa do Senado Federal. Depois de passar quase 10h em Selbach, anunciou que irá convocar diligências paramentares até pequenas propriedades rurais do interior do Brasil e empresas em que trabalhadores urbanos exerçam atividades insalubres. As diligências tem por objetivo levar parlamentares até estes lugares para conferirem “in loco” as condições de trabalho e conversarem diretamente com os trabalhadores antes de votarem qualquer tipo de alteração nas leis trabalhistas.

A Reforma Previdenciária para os trabalhadores rurais
O projeto inicial de Reforma Previdenciária enviado à Câmara dos Deputados previa idade mínima para aposentadoria de 65 anos, tanto para homens quanto para mulheres, aumento do tempo de contribuição para 25 anos e pagamento mensal de contribuição (hoje ela é paga percentualmente conforme a produção agrícola). “Estas regras deixam de fora 80% dos agricultores, especialmente porque eles não tem como contribuir mensalmente com a previdência por não terem salário”, destaca o vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais – CONTAG, Alberto Emílio Broch. Ele completa que depois de muita mobilização das centrais sindicaiso Congresso recuou e estipulou idade mínima de 60 anos para homens e 57 mulheres. “Também voltou-se atrás na tempo de contribuição que em vez de ser 25 anos, será de 15 anos. No entanto, não mexeu na forma de contribuição, que permanece sendo mensal. Ainda não é o que queremos. Agora estamos mobilizados no sentido de impedir a reforma. Se mesmo assim ela for aprovada, trabalharemos que para se recue na questão da contribuição também”, menciona.

Broch destaca ainda que existe uma preocupação com o impacto que estas medidas irão causar, não somente no meio rural, mas no desenvolvimento de pequenas e médias cidades. “Primeiro porque é um desistímulo para a juventude permanecer no campo. Segundo, porque o IBGE coloca que 71% das cidades brasileiras tem retorno maior com a aposentadoria dos rurais do que com os repasses do Fundo de Participação dos Municípios – FPM. Então comprometerá toda a sociedade brasileira”, alerta. (Diário AM)

Tags

0 comentários: