• A força e a fraqueza de Lula, Bolsonaro e Marina


    Os três lideram a última pesquisa Ibope sobre a eleição presidencial do ano que vem. Os três possuem pontos fracos e fortes, que serão levados em consideração pelo eleitor.

    A anulação da última denúncia contra o presidente Michel Temer (PMDB) e a salvação do mandato do senador Aécio Neves (PSDB) representaram um marco na conjuntura política nacional. Após estes episódios, as denúncias de corrupção foram colocadas em segundo plano, diante do avanço das articulações eleitorais. Neste contexto, a divulgação da última pesquisa Ibope serviu de termômetro para as primeiras análises sobre a disputa presidencial. Nela, o ex-presidente Lula aparece com 35% das intenções de voto e é seguido pelo deputado federal Jair Bolsonaro (13%) e Marina silva (8%). Ainda é cedo para avaliar a consistência destes índices, mas podemos analisar algumas das potencialidades e pontos fracos de cada um desses personagens.

    LULA E O PREÇO DA GOVERNABILIDADE
    O índice do petista não surpreende. Apesar das inúmeras denúncias de corrupção e do profundo desgaste de sua imagem perante a opinião pública, Lula ainda é lembrado como o presidente que pensou no social. Que deu autonomia e poder de consumo às classes populares do País. Sua condição também é fruto do visível desconhecimento de grande parte da população sobre a conjuntura política. Para muitos brasileiros, a vida piorou depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e isso basta.

    Porém, o ex-presidente terá grandes dificuldades para explicar como será capaz de formar coligações com partidos que apoiaram o impeachment. Na semana passada, chegou a dizer que está "perdoando os golpistas" e que trará a democracia de volta. O PT já costura, inclusive, alianças com o PMDB em pelo menos seis estados do País. O discurso de Lula tem um objetivo concreto. Ele sabe que não vencerá eleições ou conseguirá governar sem apoios, diante de um Congresso que aprendeu a valorizar enormemente o seu passe. Mas será cobrado pela sua própria militância. E muito. Quando olhamos para os setores mais abastados da sociedade, nem se fala. O PT foi crucificado e a imagem de que o partido é o responsável por toda a corrupção do universo deverá perdurar.

    BOLSONARO E O "MITO" DA CAVERNA

    Até pouco tempo atrás, a ascensão do deputado federal era menosprezada por grande parte da classe política. Mas, com 13% das intenções de voto, passou a ser visto como um ator que pode influenciar consideravelmente a dinâmica do voto. soube atrair a atenção das camadas mais conservadoras da sociedade, usando o radicalismo como pano de fundo. Para isso, se apoiou em três eixos discursivos de fácil adesão: Luta contra a criminalidade, combate à corrupção e aversão à política tradicional. Consciente de seu poder de "viralização" na internet, Bolsonaro foi ganhando adeptos ao apontar sua artilharia contra a população LGBT e fazer apologias ao regime militar. seus embates constantes com personagens como os deputados Jean Willys e Maria do Rosário lhe deram notoriedade.

    Sua situação me lembra o mito da caverna de Platão. Acorrentado dentro de um ambiente escuro, o eleitorado de Bolsonaro não consegue ver nada além das sombras do que se passa fora da caverna. Mas, para conseguir novos adeptos, o deputado sabe que precisará sair de sua zona de conforto. E é aí que vem o problema. sempre que questionado sobre aspectos da economia, como na sua última entrevista televisiva, se mostra despreparado e prefere "inverter" a pauta, reproduzindo novamente sua intolerância usual. Caso continue como o candidato de uma nota só, terá seus planos frustrados mais rápido do que imagina.

    Apesar do brasileiro estar revoltado com a classe política, a democracia ainda prevalece como o modelo de sociedade preferido. De acordo com a última pesquisa do Movimento "Acredito", que entrevistou duas mil pessoas, 55% da população prefere o modelo democrático. Porém, outros 22% são adeptos à ditadura, o que não deixa de ser preocupante.

    MARINA E O ESPÍRITO DO TEMPO
    A colocação de Marina na pesquisa também é previsível. Já foi candidata a presidente por duas ocasiões. sua última postulação foi profundamente influenciada pela morte do ex-governador Eduardo Campos (PB), de quem era candidata a vice. Isso a garantiu um bom recall, refletido na última pesquisa Ibope. Também de fora dos escândalos de corrupção recentes, Marina reúne vários ingredientes que a credenciam para ocupar um lugar cativo na memória do brasileiro. Tem origem humilde, é mulher, possui um discurso atraente, alicerçado na defesa da sustentabilidade. Carrega a marca da ética e defende um "presidencialismo de proposição", para se contrapor ao formato de governabilidade vigente.

    Entretanto, Marina também possui suas restrições. O discurso ambiental já teve seu auge. Nos anos 90, a temática ganhou forte visibilidade, diante dos efeitos causados pela industrialização desenfreada. A realização da Rio-92 e diversas outras conferências do gênero, alem da assinatura de compromissos como o Protocolo de Kyoto, para diminuição dos efeitos do aquecimento global, renderam visibilidade dos atores que estavam na linha de frente da causa.

    Porém, diante da falta de avanços concretos e da própria "mercantilização" da questão ambiental, a agenda perdeu importância. Ciente da mudança dos ventos, Marina passou a adotar outras pautas. Com a crise de representatividade, alavancada pelos escândalos de corrupção, apoiou a Lava Jato e desenhou um novo modelo de governança, que consiga minimizar a hegemonia da barganha. Mas sua postura esbarra no enraizamento do pragmatismo político vigente.

    Ela também terá dificuldades para legitimar sua tese, pelo fato de ter apoiado o senador Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição presidencial de 2014. Após as recentes denúncias de corrupção contra o tucano, os vídeos de Marina apoiando o então candidato voltaram a circular pelas redes sociais. Depois disso, suas aparições foram reduzidas. Tanto que lançou um vídeo, na semana passada, sobre seu suposto "sumiço". "Aos que me acusam de estar sumida, só tenho a dizer que continuo fazendo o meu trabalho", garantiu. (Folha PE)
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