• MAIOR FAZENDA DO BRASIL PLANEJA TER 200MIL CABEÇAS DE GADO


    São 135 mil hectares, área equivalente a ocupadas por metrópoles como o Rio de Janeiro ou Nova York, registrados em uma única matrícula, no cartório de imóveis local, coisa rara no País. Em geral, grandes fazendas são o resultado da compra e concentração de várias propriedades. 


    A DINHEIRO RURAL esteve durante dois dias na Nova Piratininga, localizada às margens dos rios Araguaia, Javés e Verde, a 480 quilômetros da capital Goiânia. Foi a primeira vez que uma equipe de reportagem entrou na propriedade, depois que trocou de dono, em dezembro de 2010. 

    Até então, a propriedade pertencia ao empresário Wagner Canhedo, que entrou para os anais do mundo dos negócios por ter levado à falência a Vasp, uma das principais companhias da aviação comercial brasileira. Seu lugar foi ocupado por três empresários goianos, detentores de partes iguais no negócio. Um deles, João Alves de Queiroz Filho, mais conhecido como Júnior, é o controlador do grupo Hypermarcas, colosso que no ano passado faturou R$ 4,6 bilhões com linhas de produtos farmacêuticos, de higiene pessoal e de beleza. O outro sócio é Marcelo Limírio Gonçalves Filho, ex-dono do laboratório de medicamentos genéricos Neo Química, absorvido pelo Hypermarcas, em 2009. Fecha o grupo a família de Igor Nogueira Alves de Melo, membro do Conselho de Administração da farmacêutica Teuto, fundada por seu pai Walterci de Melo e hoje controlado pela americana Pfizer. Alves de Melo foi escolhido pelos parceiros para dirigir a fazenda Nova Piratininga, na qual está envolvido praticamente em tempo integral. “Pegamos uma fazenda falida e hoje não há um único metro quadrado que não seja produtivo”, diz Alves de Melo. A fazenda está registrada como grupo MJW, letras iniciais dos nomes de seus compradores (no caso, o W refere-se ao pai de Alves de Melo, Walterci, falecido no ano passado). Remodelada, a Nova Piratininga pode ser colocada no rol das propriedades que servem de modelo para uma pecuária que produz gado bovino de alta qualidade e em larga escala. Da área total, 95 mil hectares são compostos de pastos, que alimentam um rebanho de 105 mil nelores puros ou cruzados com angus, que vem sendo submetido a um processo acelerado de seleção e melhoramento genético para dobrar de tamanho nos próximos cinco anos. O trabalho, mesmo feito a porteiras fechadas, tem chamado a atenção do mercado, principalmente de fundos de investimentos interessados em comprar a fazenda. “Já recebemos várias ofertas, mas nossa resposta é sempre não, porque, como empresários não temos perfil especulador”, diz Alves de Melo. “A Nova Piratininga, definitivamente, não está à venda. Segundo ele, o horizonte da trinca de controladores é de longo prazo, com a pretensão de produzir o melhor gado do País, com sustentabilidade. “A fazenda tem um enorme potencial para superar desafios de toda ordem.” Os sócios, que se reúnem a cada dois meses para discutir os rumos do empreendimento, acreditam que vão rentabilizar o negócio nos próximos anos, assim como fazem com seus investimentos urbanos. No ano passado, a Nova Piratininga já pagava suas próprias contas, ao fechar o exercício com uma receita de R$ 43 milhões obtida com a venda de gado. Mas o negócio vai além desse valor. Ao arrematar a propriedade, o grupo sabia que estava realizando uma grande tacada, em função da valorização da terra, principalmente a partir do momento em que ela começasse a se mostrar eficiente. A fazenda foi comprada por R$ 310 milhões, em parcelas – a última delas, no valor de R$ 50 milhões, será quitada nos próximos meses. Hoje, essa quantia pode ser considerada uma verdadeira pechincha: cinco anos depois da aquisição, o valor de mercado da fazenda decuplicou e é estimado em nada menos de R$ 3 bilhões. Não à toa, na época da compra, o trio de empresários goianos teve de disputar a fazenda de Canhedo com a família Batista, da JBS, e com o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. Ao tomarem posse da propriedade, os sócios estabeleceram um plano de governança com várias frentes de trabalho e algumas prioridades: era preciso olhar para o gado, para a terra, para a imensa infraestrutura e para os funcionários. “Quando entrei na fazenda pela primeira vez deu medo, mas, ao mesmo tempo, também senti uma imensa vontade de trabalhar nela”, diz Alves de Melo. “Estava tudo muito fora do que eu entendo por pecuária.” É preciso considerar que o diretor da Nova Piratininga, aos 35 anos de idade, não é exatamente um vaqueiro de primeira viagem. Ele começou a trabalhar aos 13 anos, dividindo o tempo entre a Teuto e uma fazenda que a família possuía antes de entrar no projeto Nova Piratininga. Alves de Melo, formado em administração de empresas, com especializações na universidade da Flórida, nos Estados Unidos, vem usando todo o seu conhecimento e ainda buscando ajuda para não errar. Terra Arrasada A gestão do rebanho foi a primeira e mais urgente tarefa a ser realizada. “Nós não sabíamos nem quantos animais havia nos pastos”, afirma Alves de Melo. A contagem do gado mostrou um cenário de terra arrasada. O rebanho encontrado era de cerca de 90 mil animais, dos quais 60 mil eram fêmeas em idade reprodutiva. No entanto, apenas 18 mil haviam parido e 16 mil bezerros foram desmamados, em 2012. Isso significa que, naquele momento, a taxa de natalidade era de 30% e a de desmame, de 26,5%, quando o índice considerado aceitável em uma fazenda de bom nível técnico é de pelo menos 70%. No Brasil, a taxa média de desmame é de cerca de 55%, praticamente o dobro da que era obtida pela fazenda. Na pecuária, essas duas mensurações são reconhecidas como os principais indicadores da eficiência reprodutiva em bovinos de corte. E a verdade, é que eles não estavam nada bons. “O manejo era muito ruim”, diz Melo. “Havia gado na fazenda que nunca tinha sido levado para o curral, que nunca tinha sido visto por um peão.” Em outras palavras, para o antigo dono, gado rústico era sinônimo de sobrevivente. Além da contagem dos animais e da separação de lotes por categorias, entre elas as de vacas, novilhas e garrotes, a Nova Piratininga fez uma parceria com os criadores Adir do Carmo Leonel, e seu filho Paulo, que administra a fazenda Barreiro Grande, em Nova Crixás, município vizinho a São Miguel do Araguaia. Leonel, que há 50 anos cria nelore, apartou as melhores fêmeas do rebanho para um projeto de uso de sêmen de touros de sua criação. Iniciado em 2012, o projeto tem como meta 100 mil nascimentos por ano, através da técnica de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF). “Hoje somos alvo de muita curiosidade de pecuaristas de todo o País”, diz Paulo Leonel. Só para ter uma ideia, entre cinco mil e dez mil animais nascidos por intermédios dessa biotecnologia já são considerados projetos de porte. É desse grupo de fêmeas inseminadas que começa a surgir a base das matrizes que vão produzir animais destinados ao abate. “Nosso objetivo é criar na Nova Piratininga um gado que eleve a qualidade genética da base do rebanho”, diz Adir Leonel. “Com ela, vai ser possível produzir animais padronizados em tamanho, peso e qualidade da carcaça.” Leonel é reconhecido por seus pares como um dos maiores conhecedores de genética nelore. Inclusive, segundo Alves de Melo, entre os funcionários da fazenda, os animais que vão nascendo dessa parceria são chamados de “gado do Adir, numa referência ao vizinho. “A gente realmente tira o chapéu para o trabalho desse criador especialista, porque de fato é um gado diferente e muito superior ao que tínhamos antes.” A compra de sêmen de reprodutores de Leonel, para a IATF, iniciada na safra 2011/2012, é o maior negócio já realizado diretamente entre duas fazendas, no País. 


    Na safra 2014/2015, do total de 45 mil fêmeas apartadas para reprodução – as demais foram abatidas – 43,4 mil entraram no programa de IATF. Desse total, 15 mil fazem parte do projeto Adir e as demais foram inseminadas com sêmen de angus importado pela CRI Genética, empresa americana de genética animal. “A ideia com o cruzamento é fazer com a melhor base nelore, animais destinados a certos nichos de mercado, como as marcas de carne”, diz Alves de Melo. “Por isso, usamos o angus na inseminação.” A taxa de prenhes nesta estação de cria foi de 45% com a IATF, bem superior ao primeiro ano de uso da técnica, quando foi utilizada em apenas sete mil fêmeas e 35% emprenharam. Nesse projeto, as fêmeas que não pegam cria são cobertas por touros nelore. O rebanho de reprodutores é de 1,6 mil animais, usados na proporção de um para cada 20 vacas. A meta é chegar a uma taxa final de prenhes de 70%, mas o zootecnista Frederico de Faria Jardim, responsável pelos negócios da CRI em Goiás, Tocantins e Pará, acredita que possa passar dos 80%, índice que as fazendas altamente tecnologicamente avançadas, conseguem alcançar. “Vamos perseguir essa meta, porque criação, com baixa produtividade, é um mau negócio”, diz Jardim. Para William Koury Filho, doutor em produção animal e dono da consultoria BrasilcomZ, de Jaboticabal (SP), que monitora cerca de 25 rebanhos de seleção, na cadeia produtiva da pecuária o setor de cria sempre foi um gargalo, porque não se dá a ela a devida importância. Segundo ele, o Brasil poderia produzir mais bezerros, com um número menor de fêmeas. Em outras palavras, com mais produtividade. São 44 milhões de animais destinados aos frigoríficos, menos de um quinto de um rebanho de 210 milhões de reses, o que representa uma taxa de abate de cerca de 21%. Nos Estados Unidos, por exemplo, são cerca de 88 milhões de bovinos, para um abate de 38 milhões de animais, ou seja, uma taxa de 43%, o dobro da brasileira. “Não há nada mais impactante na atividade pecuária que a fertilidade do rebanho”, diz Koury Filho. “E para quem faz o ciclo completo, do nascimento à entrega do boi no frigorífico, ser eficiente nesse setor é fundamental para ter lucro no negócio.” (Dinheiro Rural)
  • You might also like

    Nenhum comentário:

    Postar um comentário