• Cão passa a ser usado por criadores para espantar predadores de rebanhos

    Foto: Mauro Schaefer
    A pelagem branca faz com que o cachorro da raça Maremano Abruzês quase desapareça na paisagem, composta por ovinos da raça Hampshire Down. O predador que tentar se aproximar do rebanho ouve, então, os primeiros latidos, que podem se intensificar caso continue avançando. O cenário da Cabanha Cinco Palmas, em Uruguaiana, serve de exemplo para uma alternativa que vem se difundindo entre os criadores gaúchos de ovinos para fazer frente aos invasores. 


    A utilização do cachorro Maremano para proteção das ovelhas se intensificou nos últimos dez anos em razão principalmente do grande número de perdas provocadas por ataques de predadores. Quando criado no meio do rebanho, o cão sente-se como se fizesse parte daquela “família”. Nos casos em que foi tratado como um cão doméstico, graças à sua beleza e docilidade – especialmente quando filhote – , o animal não foi eficaz na defesa dos ovinos. Originária da Itália, a raça tem sido utilizada principalmente para conter ataques de javalis, sorros e caranchos (também conhecidos como carcarás), entre outros pesadelos dos ovinocultores. Embora o instinto do cão não seja o de atacar, a sua reação, de latir e proteger as ovelhas ao perceber uma ameaça, tem se revelado eficiente para afugentar predadores. 

    A pelagem farta possibilitou que o cão se adaptasse bem ao clima do Pampa. Nos dias de calor, ele busca proteção na sombra ou molhando-se. Mas o trabalho de proteção do rebanho tem início mesmo quando escurece, momento em que as principais ameaças dão as caras. Resistentes ao frio, os cães podem percorrer grandes distâncias. “Eles têm grande capacidade para caminhar, sobretudo durante a noite, porque são muito mais noturnos do que diurnos”, afirma o agrônomo Andres Ganzabal, do Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Inia), do Uruguai. Isso não significa que o trabalho se encerra ao amanhecer. “Normalmente, muito cedo da manhã, eles fazem uma revisão em todos os lugares onde tem ovelha. Uma espécie de recorrida de campo”, afirma o instrutor do Senar/RS e criador Marcelo Grazziotin. 


    A presença do Maremano tem sido importante na tentativa de estancar a queda no rebanho gaúcho de ovinos, que tem se acentuado nas últimas décadas. Conforme o Censo Agropecuário 2017 do IBGE, o efetivo atual é de 2,6 milhões de cabeças, o que representou uma redução de 23,8% em relação a 2006. Em 1970, o Rio Grande do Sul chegou a contar com 12,1 milhões de animais. Segundo o assessor técnico da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edegar Franco, o uso dos cachorros permitiu uma melhora nos índices de sobrevivência de cordeiros. Isso tornou-se possível porque o cão fornece proteção às ovelhas principalmente no momento da parição, quando elas – e as crias – encontram-se mais vulneráveis ao ataque dos predadores. 

    Com as terras mais férteis destinadas às lavouras de grãos, nos últimos anos coube à ovinocultura ocupar campos com topografia mais acidentada, onde cresceu a adoção do florestamento. “Isso torna o ambiente muito facilitado para o predador, que encontra ali áreas de refúgio. A dificuldade na busca de alimentos faz com que ele ataque alguns animais”, observa Franco. O maior exemplo é o município de Sant’Ana do Livramento, onde está localizado o maior rebanho ovino do país, e que é um dos locais que mais têm sofrido com a presença de javalis nos últimos anos. 

    Um dos precursores da criação de Maremanos no Brasil, o produtor Marcelo Grazziotin, de Vacaria, optou pela raça em razão da grande variabilidade de linhagens existentes no país, o que diminui o risco de acasalamentos consanguíneos. Antes disso, Grazziotin, que é criador de ovinos Ile de France, chegou a trabalhar com cães das raças Kuvasz e Komondor. Também pesou a favor do Maremano o fato de ele não ser um animal agressivo com os seres humanos. De início, as ovelhas ficaram reativas, inclusive porque o rebanho já havia sido alvo de ataques de pumas e de outros cachorros. Bastou uma semana, porém, para que o convívio entre as espécies se mostrasse harmônico – a tal ponto de os cães ficarem ao lado da ovelha no momento da parição. “Enquanto o cordeiro não levanta e não mama, o cachorro não sai dali”, descreve. O fato de o cão se alimentar da placenta contribui para evitar a presença de predadores como o carancho, que ataca os olhos dos recém-nascidos. 

    O assunto ganhou tanta repercussão que a Câmara Setorial da Ovinocultura recebeu recentemente a sugestão para que o Estado ofereça estes cães, de forma subsidiada, para pequenos produtores. “Um programa que fornecesse animais, de preferência castrados, iria ajudar muito nessa fixação do homem no campo”, observa Grazziotin. 

    Uma vida no rebanho

    Para se tornarem protetores, cães devem ficar entre as ovelhas desde filhote
    A adaptação dos cães ao rebanho ovino começou desde cedo na Cabanha Obelisco, em Dom Pedrito. Os filhotes foram colocados em um cercado de 250 metros quadrados, por pelo menos três meses, com a presença de animais da raça White Dorper. Preferencialmente, são utilizadas borregas, que irão permanecer no plantel e não serão abatidas. Ao final destes três meses, sem ter sido “domesticado”, o cão passa a estabelecer um vínculo com os ovinos. “Bem criado, ele assume o papel de protetor porque se acha um dos membros do rebanho”, explica o criador Marco Sanchotene, um dos pioneiros na utilização do Maremano no Rio Grande do Sul. 

    Embora não tenha o hábito de atacar os predadores, o Maremano assusta o invasor e, ao mesmo tempo, alerta os humanos quando sente que o rebanho está sob ameaça. Funcionários da Obelisco já observaram marcas deixadas por javalis, próximas da propriedade, após os cães terem passado a noite inteira latindo. O comportamento dos animais diante dessa situação já é reconhecido pelo criador. “É um cachorro que não tem o hábito de sair atacando. Primeiro ele late, e à medida em que o predador aumenta a pressão, vai mudando sua atitude, a ponto de repelir os invasores”, detalha Sanchotene. 

    O primeiro animal, a cadela Branca, hoje com sete anos, veio de uma fazenda de São Paulo. Mesmo localizada em uma região próxima de matas nativas, com grande presença de predadores de ovinos, a cabanha jamais perdeu nenhum animal desde que os cães foram introduzidos na propriedade. 


    Experiência uruguaia subsidiou criadores gaúchos

    Muitas experiências com a raça Maremano em solo gaúcho foram inspiradas no Uruguai. No país vizinho, o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Inia) trabalha com a raça desde 2008. O trabalho teve início com apenas um cachorro, já que até então não havia registro da raça no Uruguai. “A partir daí conseguimos algumas fêmeas para cruzar e começamos a entregar aos produtores para fazer as avaliações de campo”, explica o agrônomo Andrés Ganzabal, do Inia. O trabalho de pesquisa deu origem a um guia, que é entregue a cada criador de ovinos que recebe um exemplar da raça. 

    Segundo o Inia, o Uruguai conta com aproximadamente 600 cães registrados, mas a estimativa é de que existam pelo menos mais 100 animais atuando junto aos rebanhos de ovinos. A tendência, segundo Ganzabal, é de que este número siga aumentando, já que aquele país conta com grande quantidade de ovinos. No caso dos uruguaios, as ameaças às ovelhas são semelhantes às encontradas no Rio Grande do Sul, tais como javalis, caranchos, sorros e, principalmente, cães domésticos. “Numa noite, estes cães podem sair e matar 30 ovelhas”, detalha o agrônomo. 

    O guia entregue pelo Inia aos criadores inclui instruções sobre como adaptar os cães desde cedo. Os cães costumam ser entregues aos novos proprietários com idade entre 45 e 60 dias. A recomendação é para que eles sejam colocados em um curral com as ovelhas, por pelo menos um mês, para que ocorra a socialização. “Isso é muito importante para garantir o trabalho futuro, para que o cão seja um aliado das ovelhas”, observa Ganzabal. O proprietário também recebe um número de telefone para fazer consultas ao instituto em caso de incidentes. 

    Segundo Ganzabal, um único cão pode proteger cerca de 500 ovelhas. Porém, o recomendado, é que se trabalhe com dois animais, independentemente da quantidade do rebanho. Para dar conta da demanda, o Inia trabalha com o cruzamento de animais, sempre tomando o cuidado para que não ocorra o acasalamento entre indivíduos próximos, para que os cães mantenham a sua funcionalidade. 


    Comportamento em estudo

    O comportamento do cão Maremano despertou o interesse da zootecnista Roberta Farias Silveira, que pesquisou sobre a formação destes animais para a sua dissertação de mestrado, defendida neste ano na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O estudo foi motivado principalmente pela ausência de informações científicas a respeito da raça. No doutorado, iniciado este ano, a ideia é dar continuidade ao trabalho, desta vez pesquisando a neurologia do animal para uma melhor compreensão das suas peculiaridades. 

    A pesquisa de mestrado partiu da hipótese de que apenas o instinto do animal não seria suficiente para que ele seja utilizado como um protetor dos rebanhos, o que acabou sendo confirmado. “Precisamos dar condições e fazer a formação desse cachorro, para que ele exerça a sua função da melhor maneira possível”, ensina Roberta. Daí a importância de o Maremano passar os primeiros meses de vida junto às ovelhas, para que se acostume à sua nova “família”. O ideal é que essa formação ocorra até o primeiro ano de vida do animal, quando ele atinge a idade adulta. 

    Um dos aspectos analisados pela zootecnista foi a reação das ovelhas à presença do cão. No momento em que o animal é introduzido, há um estranhamento, porém o aspecto do pelo do Maremano, que é branco, como a maioria das raças ovinas, ajuda o rebanho a passar a confiar no seu guardião. “Já ouvi relatos de que, ao se sentirem ameaçadas, as ovelhas se posicionaram atrás do cachorro. É uma resposta positiva, tendo em vista que elas confiam no cachorro”, observa Roberta.
     
    Um dos erros mais comuns, segundo a pesquisadora, é considerar o Maremano um cão de pastoreio. Na verdade, trata-se de um cão de guarda. Desde que passou a se dedicar ao tema, Roberta tem feito palestras a produtores para divulgar a raça. Como as dúvidas do público costumam ser semelhantes, surgiu a ideia de publicar um guia para a formação dos cães, a ser lançado em breve.


    Produtor recomenda cuidados especiais na “formação” do cachorro

    Os cães Maruca (mãe), Campeiro (pai), Pelego e João Antônio (os filhos, com um ano de idade) já são conhecidos entre os vizinhos da cabanha Cinco Palmas, em Uruguaiana. Não é raro que sejam avistados próximos ao asfalto, a 2,5 km da propriedade, após afugentarem algum invasor. “Eles vão até onde podem”, observa o criador Adolfo Martins de Menezes Júnior, que adotou os primeiros animais há sete anos, satisfeito com a eficácia da utilização do cachorro na proteção do rebanho de 250 ovinos da raça Hampshire Down. 

    Cercada pelos arroios Touro Passo e Pindaí Mirim, a propriedade já foi alvo da investida de predadores, como os cães “andarilhos”. O javali e o carancho também costumam ser vistos na região. A presença da família de Maremanos representou uma garantia até mesmo contra os assaltos. Em uma ocasião, os cães alertaram para uma tentativa de arrombamento em uma casa vizinha. Na avaliação do pecuarista, os cães têm inclusive um papel importante para que o criador de ovelhas permaneça morando na propriedade, já que muitos optam por viver na zona urbana em razão da violência no campo. “No momento em que ele sai, pega aquele vínculo com a cidade”, lamenta Menezes, que vive a 22 km do centro. 

    Os filhotes nasceram dentro da propriedade, o que facilitou a adaptação ao rebanho ovino. No entanto, o produtor recomenda que os interessados estejam atentos à importância da “formação” do cachorro nos primeiros meses de vida. “Como são dóceis, se deixarem que fiquem junto com crianças praticamente tiram a utilidade deles”, observa.  (Correio do Povo)

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