Projeto Charão completa 28 anos

No mês de janeiro, o Instituto de Conservação da Biodiversidade Chico Mendes (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, publicou seu mais recente estudo sobre as espécies ameaçadas de extinção no país. A edição de 2018 do Livro Vermelho da Fauna Brasileira apontou que no país, atualmente, cerca de 1.170 espécies animais vivem sob a ameaça de serem extintos; outras dez espécies que existiam no país desapareceram por completo nos últimos anos. O levantamento também expôs que, somente na última década, 716 espécies passaram a integrar a lista de ameaçados enquanto 170 foram retiradas.
A Mata Atlântica, bioma que predomina em 17 estados brasileiros, inclusive no Norte gaúcho, é a que detém o maior número de espécies ameaçadas. Na vasta área que inicia no Rio Grande do Sul e segue até o estado do Rio Grande do Norte, mais de mil animais lutam para perpetuar gerações futuras de suas espécies. Sem estabelecer um ranking dos mais ameaçados, o estudo do ICMBio cita que entre as maiores vítimas do desmatamento e da caça ilegal estão o mico-leão-dourado, o veado-campeiro, o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, a jararaca-de-alcatrazes e o peixe-royal-gramma.
Na metade Norte do estado, a preocupação com espécies ameaçadas de extinção começou a ganhar força a partir de 1991, quando a Associação dos Amigos do Meio Ambiente (AMA) e a Universidade de Passo Fundo (UPF), através do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), criaram o Projeto Charão, proposta que tem o objetivo de desenvolver atividades de pesquisa e educação ambiental para a conservação do papagaio-charão (Amazona pretrei) e das florestas com araucária.
– Naquele ano aconteceu algo preocupante para o mundo científico quando o papagaio-charão passou a abandonar seu habitat natural, na Estação Ecológica de Aracuri, no município de Muitos Capões, nordeste do RS. Este comportamento ocorreu devido à diminuição das araucárias em função da extração florestal que havia naquele local. A partir daí é que se fez necessária a criação do Projeto Charão – explica a bióloga e técnica do Projeto, Viviane Gaboardi. “Com seu ciclo de vida dependente da araucária, naquela ocasião, a ave típica do sul e caracterizada por uma plumagem verde, estava sendo dizimada na região”, complementa.

Resultados

Após 28 anos aplicando estratégias de incentivo à criação de áreas protegidas, o Projeto Charão, já aumentou em cerca de 20 mil o número de papagaios no Norte gaúcho. “Esta espécie apresenta o hábito de se reunir para pernoitar em dormitórios coletivos. É nesse momento que realizamos a contagem deles, uma vez que todo o bando da região se reúne a tardinha e permanece no mesmo local até o amanhecer”, conta Viviane.
A profissional, que tem especialização na área de biologia da conservação, explica que todos os anos, de março a julho, quando as sementes de araucárias (os pinhões) estão em maturação, os papagaios da espécie Charão que estão no Rio Grande do Sul migram para o estado de Santa Catarina, para a região de Lages, Urupema e Painel, onde existem florestas com araucárias. “Nesse local, eles encontram suporte alimentar durante o outono e o inverno. Após o final da safra de pinhão, a espécie retorna para o RS e inicia seu período reprodutivo. Cada casal tem de dois a quatro filhotes, sendo que macho e fêmea se revezam no cuidado e trato das crias”, conta a bióloga.

Expansão das atividades

Coordenado pelos professores Jaime Martinez e Nêmora Pauletti Prestes, da UPF, a partir de 2009, o Projeto Charão expandiu suas atividades de pesquisa e conservação para o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea). A espécie, assim como a do papagaio-charão, vem apresentando forte declínio populacional na natureza.
– A experiência com o charão habilitou a equipe para conduzir o Programa Nacional de Conservação do Papagaio-de-peito-roxo, desde o Rio Grande do Sul até o sul da Bahia, orientado pelas metas do Plano Nacional dos Papagaios do Brasil (PAN Papagaios). Dessa maneira, estamos realizando a contagem nacional do papagaio-peito-roxo desde 2014 a partir do mapeamento das áreas prioritárias para a conservação desta espécie – destaca Viviane.

Na prática

Entre ações desenvolvidas para manter ambas as espécies de papagaios vivas, está a elaboração de ninhos artificiais para que as aves possam se reproduzir. “Após medirmos os ninhos naturais dessas aves, passamos a projetar uma caixa-ninho. Elas são instaladas em áreas prioritárias para a reprodução dos dois papagaios, aumentando assim a disponibilidade de locais para postura dos ovos, uma vez que os papagaios não constroem ninhos e sim utilizam as cavidades que encontram na natureza. Estas cavidades naturais, por sua vez, estão desaparecendo, pois as árvores velhas, que podem proporcionar o oco, caem ou são utilizadas como lenha nas propriedades”, observa a bióloga.
Na busca por preservar as florestas com araucárias, o projeto vem realizando desde 2006 o curso Resgate do Pinheiro-Brasileiro, destinado a professores do ensino fundamental das regiões prioritárias para o charão e o peito-roxo, já tendo edições nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais. O curso tem duração de um ano
– Através desse curso, os professores trabalham em tarefas multidisciplinares nas escolas, realizando um resgate sobre a importância histórica, econômica, cultural e ambiental das florestas com araucárias. As atividades do curso são finalizadas com os viveiros escolares com a produção de mudas de araucária que posteriormente são levadas às propriedades rurais. Estamos preparando a 5ª edição do curso para agosto de 2019 no município de Caxias do Sul – pontua Viviane.
Além disso, o projeto atua no incentivo à criação de RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Para tanto, adquiriu uma área de 46 hectares no município de Urupema-SC. “Trata-se de uma reserva que está a uma altitude entre 1.300 e 1.455 metros e é estratégica para a produção de pinhão e para a fauna silvestre, em especial do papagaio-charão e papagaio-de-peito-roxo. Ali, eles buscam seus recursos alimentares quando a safra de pinhões pela região começa a diminuir”, explica.
Atualmente, entre os parceiros do Projeto Charão, estão a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, a Fundação Loro Parque, a Rainforest Trust e o Parque das Aves. Através de estágios, os acadêmicos vinculados aos cursos de Ciências Biológicas e Medicina Veterinária, da UPF, também desenvolvem diversas atividades do Projeto Charão.

Caça ilegal e agrotóxicos

Para Delmar Cardoso, que preside a ONG Ariva (Associação Amigos do Rio da Várzea), o enfrentamento à caça ilegal através de leis punitivas tem ocasionado resultados positivos em relação à preservação das espécies ameaçadas de extinção. Entretanto, segundo ele, na região de Carazinho, a quantidade de espécies ameaçadas ainda é grande. “O jacu, a pomba carijó e o tatu são algumas delas”, observa Cardoso, que emenda:
– Aquela geração de homens que tinha o hábito de caçar animais silvestres, felizmente, está se perdendo e seus filhos não estão perpetuando essa prática criminosa. Quando os primeiros italianos chegaram à região, para sobreviver, a caça de todo e qualquer animal era comum e até necessária. Hoje em dia, essa prática não condiz mais com a nossa realidade e há um movimento de assimilação disso acontecendo, até mesmo nas escolas, no sentido de orientar as futuras gerações – avalia.
Por outro lado, Cardoso cita que vem em uma crescente a morte de animais silvestres causadas pelo uso de agrotóxicos. Exemplo disso é a perdiz, ave que tem sua extinção ligada ao uso dessas substâncias. “Infelizmente, recentemente, o Brasil deu mais um passo para trás nessa questão, quando a ministra da Agricultura autorizou a entrada de novos agrotóxicos ao país. Trata-se de substâncias proibidas em diversos países da Europa e nos EUA e que, agora, chegam ao país para dizimar diversas espécies – alerta.
Fundada em 2011, a Ariva tem sede em Carazinho e sua finalidade é realizar ações e projetos que visem análises e pesquisas ambientais, diagnósticos das águas do Rio da Várzea e seus afluentes, e a proteção do meio ambiente. A última atividade foi realizada no dia 9 de março, quando integrantes da ONG promoveram uma ação de limpeza no local, chamando a atenção da população para a problemática que envolve a poluição de rios. (Diario da Manhã)

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